Artigo: Quem disse que os líderes não precisam de cuidados?

A pressão para manter tudo em ordem é maior para a liderança, muitas vezes incentivando comportamentos que ignoram os cuidados com a própria saúde mental. “Sem tempo” para o autocuidado, os líderes se voltam para os cuidados com os colaboradores e os processos operacionais da empresa.

IMG_1293-Editar (1) Tatiana Pimenta, CEO da Vittude. (Foto: Divulgação)

Um líder possui diferentes responsabilidades dentro de uma empresa. Além de garantir a produtividade das equipes, esse profissional precisa mediar conflitos, oferecer suporte para o desenvolvimento dos trabalhos, corrigir déficits e pontos fragilizados e, sobretudo, construir a confiança entre o time.

Concomitantemente, o líder precisa lidar com a pressão, a cobrança por resultados e o aumento da responsabilidade. Embora sejam recompensadores, cargos de alta gestão também estão mais suscetíveis a sofrer com o excesso de estresse. Este, por sua vez, é a fonte de múltiplos problemas de saúde.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 90% da população mundial sofre com o estresse, sendo que a maior causa deste é o trabalho. No Brasil, um levantamento feito pela Associação Internacional do Controle do Estresse (ISMA) identificou que o país ocupa a segunda posição do ranking global de nações estressadas.

Ou seja, o nosso país não costuma fazer uma boa administração nem prevenção do estresse no trabalho, embora ambos sejam essenciais para a saúde mental dos trabalhadores.

As lideranças organizacionais ainda enfrentam empecilhos quando o assunto é o cuidado com a saúde mental e, consequentemente, a física. Ao contrário do que se costuma pensar, o aumento de responsabilidades de uma função não precisa se equivaler ao aumento do estresse e mal-estar.

Como a saúde mental dos líderes é afetada?

A pressão para manter tudo em ordem é maior para a liderança, muitas vezes incentivando comportamentos que ignoram os cuidados com a própria saúde mental. “Sem tempo” para o autocuidado, os líderes se voltam para os cuidados com os colaboradores e os processos operacionais da empresa.

O excesso de atenção concedido a outros fatores consequentemente diminui a atenção com o próprio bem-estar. Assim, a posição de líder é propícia para o acúmulo do estresse. Quando a liderança não consegue lidar com a quantidade de elementos estressores presentes no ambiente profissional, a produtividade e a motivação gradualmente sofrem os impactos da sobrecarga emocional.

Sem contar que os acontecimentos incontroláveis do mercado, como crises econômicas e mudanças legislativas, também afetam a performance da empresa e o estado emocional dos líderes. Como eles precisam fazer o gerenciamento das crises, facilmente se tornam vítimas do estresse em meio a elas.

Além dos fatores externos, há também a influência de conflitos internos. A autocobrança, a insegurança, o perfeccionismo e a ansiedade dos líderes – sentimentos típicos de quem precisa lidar com muita responsabilidade – intensificam o mal-estar.

Desafios do autocuidado para a liderança

De acordo com a pesquisa Saúde mental nas empresas: qual a percepção de líderes e liderados?, feita pela Vittude em parceria com o Opinion Box, somente 6% dos líderes consideram importante mostrar-se vulneráveis e humanos no ambiente de trabalho.

Há receio, por parte dos gestores, de que as suas fragilidades sejam vistas como justificativas para a sua inaptidão ao cargo de liderança. Dessa maneira, na tentativa de demonstrar eficiência e por temerem levar os seus problemas emocionais ao RH, os líderes acabam negligenciando a si mesmos.

Em empresas onde a educação emocional é débil, os problemas psicológicos dos líderes e colaboradores podem, de fato, ser interpretados como falta de eficiência, preguiça ou má vontade.

Antes de líderes, contudo, os profissionais que ocupam essa posição são seres humanos. Eles sentem assim como todas as outras pessoas.

Por que, então, fazem tanto esforço para esconder esse lado óbvio de sua existência? Essa postura pode causar desconexão com a equipe e a empresa, além de afetar a autoconfiança e a vontade de produzir dos líderes.

Os líderes também são profissionais-espelho e fazem contribuições expressivas para a construção e manutenção da cultura organizacional. As suas atitudes são observadas e admiradas pelos colaboradores, tornando-os referências de ética profissional.

Se a liderança demonstra descaso com o próprio bem-estar, as equipes podem começar a fazer o mesmo e contribuir para o aumento do estresse e dos conflitos no ambiente de trabalho.

IMG_1333-Editar (1)Tatiana Pimenta: ' também passei por momentos emocionalmente desgastantes'. (Foto: Divulgação)

Uma preocupação inédita para as organizações

Recentemente, a pandemia de COVID-19, que se iniciou no Brasil em meados de março de 2020, se tornou uma preocupação urgente para as empresas e lideranças.

Um estudo desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) determinou que sintomas de depressão e ansiedade chegaram a afetar a saúde mental de cerca de 47% dos trabalhadores brasileiros durante a pandemia. Desse percentual, 30,9% dos participantes afirmaram ter sido diagnosticados ou passado por tratamento de um transtorno mental, como depressão e ansiedade generalizada.

O medo, a preocupação com a saúde, o luto e a angústia do isolamento social naturalmente afetaram (e continuam afetando) a saúde mental dos brasileiros.

Nas empresas, o reflexo da pandemia de COVID-19 foi severo. Negócios que se mantiveram por anos subitamente fecharam as portas ou demitiram centenas de funcionários contra a vontade. O Ministério da Economia revelou que 1,04 milhões de empreendimentos foram fechados em 2020 devido à pandemia.

Neste cenário, é natural que empresários tenham medo de ser os próximos a fechar ou a sofrer prejuízos financeiros. Do mesmo modo, é natural que trabalhadores temam a demissão e os líderes tenham medo de tomar atitudes drásticas para manter a empresa em operação.

O resultado de tanta preocupação e incerteza acerca do futuro acaba sendo a debilitação da saúde mental.

Líderes não estão imunes a problemas de saúde

O conjunto de preocupações externas e internas enfrentadas pelos líderes consequentemente leva ao esgotamento ocupacional, ou em outras palavras, à Síndrome de Burnout.

O “estouro” inicial normalmente acontece na forma de um mal-estar súbito, com taquicardia, febre, queda ou elevação de pressão, dormência dos membros, tremores pelo corpo, entre outros sintomas.

Segundo a pesquisa, 55% dos líderes afirmam que têm sintomas de estresse e ansiedade. O líder esgotado também vive uma série de sentimentos que dificultam o reencontro com o bem-estar emocional, como apatia, desesperança e irritação. Em longo prazo, eles podem culminar em uma depressão.

Para que os líderes possam desenvolver o seu trabalho visando tanto o crescimento da empresa quanto o crescimento pessoal, eles precisam cuidar da saúde mental. É como aquele ditado um tanto clichê: “É preciso cuidar de si antes de cuidar dos outros”.

Como CEO, eu também passei por momentos emocionalmente desgastantes antes, durante e depois da fundação da Vittude.

Como sempre soube do valor da terapia e do autocuidado, eu já vinha fazendo acompanhamento psicológico há alguns anos. Ele se tornou indispensável quando fui demitida novamente e meu pai ficou doente, eventos anteriores ao nascimento da Vittude. Depois, surgiram os primeiros perrengues do mundo da administração de empresas.

Com o auxílio de um psicólogo e de amigos, bem como o cuidado constante com a minha saúde mental, consegui correr atrás dos meus objetivos e criar uma plataforma online voltada justamente para esse propósito.

Cada pessoa sente os efeitos do desgaste psicológico de forma única, e muitas ainda não conseguem expressar o seu desconforto por temerem a demissão ou o afastamento. A falta de autocuidado, no entanto, acaba interferindo na carreira do mesmo jeito. O profissional esgotado é forçado a se afastar do trabalho e se recuperar.

Como os líderes podem cuidar da saúde mental?

Nossas pesquisas indicam que somente 25% dos trabalhadores, incluindo líderes e liderados, acreditam que elas se preocupam com saúde mental. Essa questão ainda é tratada com estranheza e desconhecimento no mundo corporativo, cenário que justamente tento mudar com a Vittude, a terapia corporativa e os materiais sobre educação emocional que disponibilizamos na plataforma.

O cuidado com a saúde mental dos líderes e demais colaboradores deve ser uma das prioridades das empresas. Se não estiverem bem, como eles poderão trazer os resultados esperados?

Para isso, as empresas podem.

1. Investir em terapia

Investir em terapia permite que líderes desenvolvam um olhar de cuidado com a saúde mental. Com mais autoconhecimento e autoconfiança, os gestores conseguem gerir as suas equipes com mais conforto.

Além de aprenderem a prevenir e lidar com a depressão, o estresse excessivo e as doenças psicossomáticas, eles se transformam em exemplos de boa conduta profissional para os colaboradores.

2. Investir em mudanças na cultura organizacional

Outra pesquisa feita também pela Vittude e pelo Opinion Box apontou que, durante a pandemia, somente 28% dos mais de 2 mil trabalhadores brasileiros entrevistados se sentia confortáveis para falar sobre problemas pessoas com o RH.

É importante que todos os colaboradores sejam tratados com humanidade e suas dificuldades sejam respeitadas. Eles devem ter consciência de que não precisam ser indestrutíveis para serem valiosos para organização.

Afinal, as emoções e sentimentos são partes intrínsecas dos seres humanos e não devem ser tratadas como impedimentos para a eficiência profissional.

À medida que os líderes adotam o autocuidado, uma cultura de atenção com a saúde mental é instalada na empresa. A capacitação de gestores em educação emocional consequentemente ajuda as equipes a lidar com questões emocionais.

3. Investir em capacitações

Capacitações voltadas para a educação emocional são essenciais para desenvolver o mindset de autocuidado. Os líderes precisam ter um determinado entendimento do assunto para que consigam tomar decisões visando não apenas o trabalho, mas o seu bem-estar emocional.

Essas capacitações também os ajudam a desenvolver a resiliência, a inteligência emocional, a paciência e outras soft skills necessárias para tornar o ambiente profissional menos estressante.

Recentemente eu, junto com a equipe da Vittude, iniciei um podcast: o Terapeutizados. São conversas com grandes líderes sobre como a terapia mudou a vida deles, e ainda muda. Vale a pena escutar algumas dessas histórias para entender a importância que esse cuidado tem na vida e no desenvolvimento das lideranças.