"Pandemia é um divisor de águas no mundo inteiro", afirma Luiz Fernando Furlan

Ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (2003 - 2007), o atual chairman do LIDE analisa os principais desafios brasileiros para as próximas décadas

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Ex-ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior analisa os principais desafios brasileiros para as próximas décadas. (Foto: Arquivo/LIDE)

Membro do Conselho de Administração da BRF S.A. e da Telefônica Brasil S/A, Luiz Fernando Furlan é um dos brasileiros com maior capacidade e experiência para apontar com riqueza de detalhes quais são nossos grandes erros e acertos na busca pelo crescimento e desenvolvimento socioeconômico.

Furlan foi Ministro de Estado no Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior de 2003 a 2007 e também participou da gênese do LIDE - Grupo de Líderes Empresariais. O empresário atua hoje como membro de diversos grupos e organizações, como o Comitê de Líderes do MEI/CNI (Movimento Empresarial pela Inovação), Conselho Consultivo do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial – ETCO, Instituto Ayrton Senna, Conselho da Fundação Amazonas Sustentável, CEBRI – Centro Brasileiro de Relações Internacionais e Conselho Supervisor da Japan House. Tamanho engajamento revela sua construtiva participação na vida empresarial brasileira.

Nesta entrevista, o executivo e chairman do LIDE fala sobre seu papel para a expansão do Grupo, além de avaliar as principais características do mundo corporativo nesse momento, com destaque para perspectivas para os próximos anos e a responsabilidade dos gestores na condução e estímulo de novas e boas práticas empresariais.

LIDE: De que maneira novas práticas e mudanças estruturais no País ajudaram os mais diferentes segmentos e negócios a evoluírem?

Luiz Fernando Furlan: É preciso levar em conta algumas modificações legais que aconteceram nesse período. Ainda na primeira década desse milênio, algumas novas leis criaram condições de facilitação empresarial. Eu destacaria a criação da MEI (Lei Geral da Micro e Pequena Empresa), legislação que proporcionou a legalização de milhões de empreendedores por meio de um sistema simples e de baixo custo. A Lei de Inovação Tecnológica também abriu caminho para muitos cientistas e inventores que não tinham condições de viabilizar o seu projeto. Com ela foi possível formar verdadeiros empresários. A Lei do Bem foi outra medida que reduziu tributos e facilitou a vida de toda essa área de tecnologia e informática. Mais adiante, tivemos a reforma das regras trabalhistas, o que representava um atraso tremendo. O Brasil tinha uma legislação completamente distante da realidade. Por fim, a reforma da Previdência foi algo essencial, embora os efeitos venham apenas a longo prazo. No geral, aconteceram muitas medidas de redução de burocracia, sem contar o avanço da própria comunicação e tecnologia, facilitando operações financeiras e pagamentos. Inclusive, o surgimento dos bancos digitais e das fintechs, nos quais os custos são muito baixos para os usuários, acelerou o surgimento de novos negócios e investidores

Qual o perfil desse novo empreendedor e o que define o 'empreendedorismo moderno'?

Com a pandemia, muitos negócios tiveram que ser ajustados de maneira rápida. Um bom exemplo aqui no Brasil é o Magazine Luiza, uma empresa que não se desconectou do negócio tradicional, mas percebeu que o futuro é a internet e soube usar isso a seu favor. Portanto, o empreendedor moderno é muito mais ágil. As barreiras para empreender diminuíram muito, principalmente devido ao uso de tecnologias e o capital disponível no mercado. Tudo isso tem uma ligação direta com educação, temos milhares de jovens produzindo e procurando inovar.

A educação empreendedora pode contribuir para lidarmos melhor com crises como a que estamos vivenciando? De que maneira?

O que se demanda hoje no mundo dos negócios são características que nem sempre vem da escola tradicional. Talvez o grande nó da educação moderna esteja mais nos professores do que nos alunos. O evento da pandemia mostrou que as escolas que colocaram dinamismo nas aulas estão conseguindo maior sucesso. Eu diria que dentro de uma estrutura de governo, a área mais essencial de todas é a educação, mais que a saúde, pois melhorando a educação você diminui a disseminação de doenças e estimula hábitos saudáveis.

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Luiz Fernando Furlan é o atual chairman do LIDE, o Grupo de Líderes Empresariais. (Foto: Arquivo/LIDE)

O Grupo LIDE é uma referência na promoção de debates, conteúdos, ideias e encontros que visam o aprimoramento da gestão pública e empresarial. Qual a sua maior satisfação de estar à frente da organização?

O LIDE têm uma característica importante, muitas vezes colocada por seu fundador: acreditamos que as coisas devem ser feitas de maneira correta, na hora certa e sem erros. Tudo é previsto e as pessoas são treinadas para atingirem a excelência. O meu desafio surgiu com a ideia do fundador de começar uma carreira política. Ao ser escalado, por alguma razão, para ficar em seu lugar, eu até me surpreendi, pois eu não tenho as características do João Doria. Eu sou mais informal, tenho mais idade e uma formação diferente. Com isso, o primeiro tema que eu coloquei ao Comitê de Gestão foi de que maneira manteríamos o LIDE em pé, com vitalidade, progredindo, agregando sempre, sem o líder fundador. A resposta que nós tivemos em pouco tempo veio da intensa colaboração de todos. Percebemos nesse tempo que o LIDE possui uma grande capacidade de adaptação, o que é perceptível nesse momento de pandemia, no qual, obviamente, eventos presenciais não são permitidos, mas o Grupo mantém uma agenda ativa de eventos digitais. Nossa equipe é formada por pessoas que não se desagregaram e que continuam seguindo a trilha do ideal que foi criado desde o início da organização.

O que falta para termos uma agenda focada na retomada do crescimento econômico e social?

Tenho participado de diversos seminários e webinários, inclusive com pessoas do mundo todo. É surpreendente quando ouvimos falar sobre os nossos problemas, pois eles são muito menores do que da maioria dos países. Temos um patrimônio ambiental que ninguém tem no mundo e, olhando pelo lado econômico, não temos dívida externa, as reservas brasileiras em moeda forte são suficientes para pagar toda a dívida do País e das empresas brasileiras, enquanto países vizinhos estão indo ao FMI pedir dinheiro emprestado. Temos sim uma enorme dívida interna, mas no fundo ela está sendo carregada por poupadores, fundos de pensão, aposentados, empresários, aplicadores, ou seja, todos nós temos um pedaço dessa dívida em dinheiro aplicado. Na realidade, é preciso uma mudança de âmbito cultural, precisamos de um líder que mostre um caminho, onde queremos chegar e o que temos que fazer para sermos competitivos, nós já temos ilhas de excelência.

As empresas mergulharam de vez em um processo de disrupção tecnológica, como o setor público pode se beneficiar ainda mais do avanço da tecnologia?

Tudo o que é digitalizado e modernizado acaba tirando poder das pessoas. No momento que você avançar na modernização do estado brasileiro, vai sobrar milhares de pessoas que são improdutivas e estão em posições desnecessárias. Além da tecnologia, existe também a dificuldade de encontrar bons profissionais que topem assumir cargos públicos. De uma maneira ou de outra você se expõe, isso assusta muita gente que poderia levar sua experiência para contribuir tanto no legislativo como no executivo.

Qual será o impacto da pandemia nas relações internacionais entre governos e empresas? Que lições vamos tirar dessa experiência?

A pandemia é um divisor de águas no mundo inteiro. Não houve na história recente algo que conseguisse paralisar o planeta dessa maneira. Ocorreu uma imensa destruição de riqueza, o que pode gerar um momento de grande criatividade, pois o mundo que emerge do pós-pandemia não vai ser igual. As experiências de trabalho remoto, de cooperação internacional, de uso da tecnologia, compartilhamento de informação e dados, mostram que a solidariedade entre as pessoas será mais visível no dia a dia. A pandemia despertou na sociedade e nas organizações essa capacidade de ser solidário, de entender que ninguém vai resolver o problema sozinho. Ao mesmo tempo, ficou claro que o atual modelo de globalização e interdependência também vai precisar ser ajustado. Mas o grande debate será entorno da sustentabilidade, a questão da água será algo crítico nas próximas décadas e o Brasil tem grandes reservas. Esse tesouro precisa ser preservado e valorizado por meio da economia sustentável.

Aos olhos do mercado, quais serão os grandes temas do ambiente corporativo nos próximos anos no Brasil?

Mais e mais consumidores vão valorizar as empresas que respeitam e têm certificações sustentáveis. Produtos que não respeitarem a sustentabilidade deverão receber medidas protecionistas de países desenvolvidos, então o tema tem um valor intrínseco. O Brasil é o país com o uso mais intenso de energia sustentável, no entanto, estamos na defensiva como se fossemos os vilões. O compromisso ambiental que o Brasil assumiu de redução de emissões são totalmente viáveis se comparado a outros grandes países. Esta será uma de nossas grandes bandeiras nos próximos anos.

Os associados do LIDE elegeram três temas há um ano atrás para guiar as ações e debates do Grupo. O primeiro foi educação, o segundo assunto foi reforma tributária e simplificação da burocracia e o terceiro foi a própria sustentabilidade. Esses três tópicos podem colocar o Brasil no time de nações de primeiro mundo.